O leitor que busca uma espiritualidade real deve, inevitavelmente, redefinir a palavra mais distorcida pela história humana: o amor. Fomos condicionados pelas pregações dos ídolos de barro a enxergar o “amor ao próximo” como uma extensão do sentimento carnal, uma simpatia poética ou o simples “gostar” do outro. Mas o amor que o Cristo espiritual exige está infinitamente acima das paixões humanas.
No monumental Sermão da Montanha, Jesus implode o egoísmo biológico ao declarar: “Se amais os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?” (Mateus 5:46). Cristo não nos convoca para um afeto seletivo. O amor crístico não é um sentimento carnal; é uma cultura de coletividade espiritual. É a compreensão geométrica de que todos os humanoides da Terra são emanações do mesmo sopro divino e, portanto, interdependentes.
Naturalmente, entre o que é justo e perfeito, é impossível desenvolver essa consciência cósmica sem antes praticá-la no núcleo onde a vida o inseriu. O amor ao próximo começa com o amor ao que está perto, à sua própria família. Qual exemplo o Verbo daria se não amasse Maria ou José? Embora as escrituras tenham silenciado a maior parte dessas narrativas domésticas para dar espaço aos debates teológicos dos ídolos de barro, o entendimento espiritual nos mostra que a base da Cristandade reside no acolhimento daqueles que dividem o mesmo teto e o mesmo sangue. [1]
Não há como seguir a Jesus sem que a Cristandade d’Ele pese, de forma concreta, em nossos atos cotidianos. A desculpa universal das igrejas modernas é o confortável eco: “Ah, mas nós somos pecadores!”. Sim, nós somos falíveis, e não há controvérsia nessa realidade factual. No entanto, usar a condição de pecador como escudo para a omissão é a maior das covardias morais.
Olhe para a história dos últimos dois milênios. A marca corporativa erguida em nome de Cristo arrecadou, através de dízimos e ofertas, mais recursos financeiros do que a maioria dos países pobres do planeta juntos. E qual foi o resultado prático gerado pelos ídolos de barro que administram essa fortuna e detêm títulos eclesiásticos como se o próprio Deus os tivesse assinado? Eles nunca criaram um país que fosse a antessala do Paraíso. Nunca estabeleceram na Terra uma escola de cristãos ativos e transformadores no mundo.
Pelo contrário, o que impera nesses megatemplos é o espetáculo midiático. Vemos celebridades passageiras e figuras públicas utilizando o dízimo e as ofertas milionárias para se destacarem nas telas como representantes subalternos desses ídolos de barro. Há uma vaidade grotesca nessas transações. Se essas mesmas celebridades e fiéis praticassem o verdadeiro amor ao próximo, sem permitir que seus recursos fossem confiscados por líderes que enriquecem e se tornam bilionários, suas moedas e suas ações físicas fariam milagres nas ruas.
Se você não confia nos líderes de barro para entregar o seu dinheiro, por que continua jogando suas moedas em um poço sem fundo? Nada, absolutamente nada no Universo, impede você de usar os seus recursos para ajudar o seu próprio familiar ou o seu vizinho necessitado.
O argumento defensivo da mente mesquinha costuma ser: “Mas se eu ajudar diretamente, ele vai se acostumar!”. Ora! E os ídolos de barro já não possuem o hábito milenar de receber fortunas em nome de Deus e pouco ou nada fazerem de real pelos seus fiéis? Na dúvida entre sustentar o palácio do pastor ou saciar a dor do aflito, faça você mesmo a entrega. Seja você o canal: compre a cesta básica, pague o remédio, forneça a cadeira de rodas.
A maior ignorância espiritual é financiar a opulência de templos vazios de espírito enquanto o seu semelhante padece na calçada. O verdadeiro ensinamento crístico nos convoca a agir antes mesmo que a necessidade se transforme em um clamor desesperado. Proteja o seu irmão antes que ele precise implorar.
Qual é o mérito oculto em ver o seu próximo humilhar-se diante de você na fragilidade da miséria? Se você sente prazer em ser o provedor altivo enquanto o outro assume o papel de pobre necessitado, você não está praticando o cristianismo; você está alimentando o pior sadismo do seu ego humano. O Sermão da Montanha corta essa vaidade na raiz ao estabelecer a regra de ouro da caridade anônima:
📜 “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. […] Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita.” (Mateus 6:2-3)
A fé espiritual no mundo laico não se faz de palavras projetadas em telas digitais, outdoors ou canções comerciais. Ela se faz no silêncio geométrico de uma ação justa. O verdadeiro cristão ativo desliga o microfone do templo e estende a mão na matéria, sabendo que salvar o Ser da fome e da dor é o único culto que o Verbo aceita.
📚 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (Consolidadas)
- BÍBLIA SAGRADA. Evangelho de Mateus (Capítulo 5, 6 e 7 — O Sermão da Montanha; Capítulo 25:14-30, a Parábola dos Talentos).
- ALEXANDRIA, Orígenes de. Tratado sobre os Princípios (De Principiis). São Paulo: Paulus, 2012.
- TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Bernardo do Campo: É Realizações, 2005. (Base conceitual sobre a ética do amor como força de integração e profundidade do Ser). [1, 2, 3]
Deixe um comentário