A Prenda da Sorte

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CAPÍTULO II: A ILUSÃO DO LIVRE-ARBÍTRIO ANTE A CRUELDADE DA FOME E O PECADO DA COLONIZAÇÃO

Para o leitor que foi alimentado com a teologia da culpa, proponho uma descida ao chão da realidade factual. A engrenagem mais perversa da “religião de Caifás” e de suas ramificações modernas é a criação de um conceito abstrato, puramente humano e desconectado da carne: o livre-arbítrio absoluto. Ensina-se nos púlpitos que o homem possui a escolha plena entre o bem e o mal, o pecado e a virtude, como se todas as decisões nascessem em um laboratório espiritual estéril, livre das pressões do estômago.

Essa é a maior mentira teológica da história. A fome anula o livre-arbítrio.

Quando a escassez extrema se impõe, a biologia humana desativa as camadas da moralidade civil e ativa o imperativo absoluto da sobrevivência. O homem que vê seus filhos definharem pela falta de comida não desfruta da liberdade de escolha; ele é empurrado pela força violenta da sua própria natureza a romper as cercas do direito de propriedade. O filósofo político Thomas Hobbes compreendeu essa mecânica elementar ao afirmar que o direito à autopreservação é a lei fundamental da natureza. Se o Estado falha e a sociedade nega o básico, o contrato social se desfaz. O indivíduo retorna ao estado de necessidade pura.

Ao punir aquele que subtrai o pão ou a água para não morrer, a religião institucionalizada comete o crime da cegueira voluntária. Os líderes religiosos modernos, refastelados em banquetes financiados pela fé alheia, usam o conhecimento das escrituras para moldar uma retidão que a eles mesmos não custa nada. Eles transformaram o pecado em uma folha de infrações comerciais, ignorando que o verdadeiro pecado estrutural reside na sociedade que permite a miséria, e não no miserável que reage a ela.

Contudo, para compreender a profundidade dessa hipocrisia, precisamos temperar nossa análise com a própria fundação das sociedades nas Américas — do Norte, Central e do Sul, com ênfase brutal na construção colonial do Brasil.

Como podemos, ainda hoje, lotar os cultos dominicais e as missas em massa, repetindo mecanicamente que “aceitamos Jesus”, sem sequer compreender a essência do que Dimas viu em seus momentos finais? Dimas reconheceu a grandeza do Verbo de Deus presente na Terra sem precisar de um manual litúrgico. Enquanto isso, as massas modernas repetem fórmulas vazias assentadas sobre as fundações de um crime histórico de proporções continentais.

As relações da nossa sociedade foram constituídas sobre o sangue. Os colonizadores invadiram as terras das Américas, estupraram e abusaram dos povos indígenas que aqui já habitavam, e passaram séculos erguendo uma mentira civilizatória que usava a igreja dos homens de barro como viés moral e justificativa espiritual. Esta aliança histórica entre a cruz e a espada — o uso da religião para legitimar a expropriação violenta — é o que o historiador Achille Mbembe conceitua como necropolítica, onde o poder soberano se manifesta no direito de decidir quem pode viver e quem deve morrer. A igreja institucionalizada foi o suporte ideológico que permitiu a extinção de povos originários inteiros sob o manto de uma falsa salvação.

Não há como mudar a realidade do que o mundo viveu, e é um fato que àqueles povos originários não se conseguiria devolver o que foi tomado. No entanto, a sociedade atual, que se julga salva pelos evangelhos, atinge o ápice da patetice. Ela se deixa converter em massa de manobra por líderes religiosos que manipulam a fé unicamente para garantir os vinténs do dízimo — moedas que transformam ídolos de barro em bilionários à custa da ignorância alheia.

Olhe para a sua propriedade. Qual é a lógica de você exibir um título registrado em Cartório e acreditar piamente que aquela terra é sua? Se medirmos a realidade pelos conceitos mais profundos do Judaísmo, do Cristianismo Primitivo e até pelas visões místicas de Enoque, a terra não pertence ao homem; ela pertence ao Criador. Não há como ignorar o fato factual de que a terra onde você pisa não é sua por direito divino. Para que você ostente o seu título de posse, em algum momento da história houve a extinção dos povos primitivos, ou você a comprou sabendo que ela foi fruto desse confisco ancestral.

Nenhum de nós se desculpa com aqueles que temperaram as matas com suas vidas e que hoje, pela biologia elementar, decompuseram-se no solo, servindo de nutrição para as plantas e árvores que nos cercam. Qual é a moralidade desse desconhecimento? A história escancara a desumanidade daquilo que registramos e compramos friamente em cartório. Caminhamos sobre o cemitério das percepções do passado, fingindo que nossa herança é limpa. Não pedimos licença aos que se foram sob o peso da bota colonial colonizadora.

O que Cristo mostrou em sua evolução espiritual não guarda qualquer relação com o que pregam os ídolos de barro que hoje ostentam o título de “homens da fé”. O “PR” que antecede os nomes do PadRe ou do PastoR não vale absolutamente nada mais do que o “PR” que encerra a condição do PecadoR. Pelo contrário: esses líderes se distanciam radicalmente daquilo que o Jesus do Cristianismo Primitivo exemplificou ao manifestar o Verbo entre nós.

Até mesmo o termo “humano” carrega o vício da nossa limitação geocêntrica e orgulhosa. Diante das probabilidades estatísticas do Universo, onde a existência de humanoides — outros seres vivos com algumas de nossas características — é uma certeza matemática nas infinitas moradas do Pai, o termo correto para nós deveria ser humanoides da Terra. Nós somos apenas uma expressão biológica local do “Ser”.

Cristo operava em uma frequência absolutamente superior a essa hipocrisia moral e geográfica. Ele não ignorava a urgência da matéria. Quando a multidão o seguia no deserto, sua primeira reação não foi pregar um sermão abstrato sobre a pureza da alma, mas ordenar a multiplicação dos pães e dos peixes.

Jesus sabia que não se fala de espírito a estômagos vazios e a corpos esmagados pela opressão. Ao afirmar que veio para os pecadores, Ele abraçou a totalidade da nossa fragilidade colonial, biológica e existencial. Ele sabia que o ser de barro falha porque o barro é frágil, forçado a sobreviver em um mundo moldado pelo roubo, pela fome e pela escassez.

Portanto, a cruz não é um tribunal de apuração de méritos territoriais ou de pureza eclesiástica. Ela é o ponto de acolhimento para o humanoide da Terra que, sufocado pelas engrenagens trágicas da história colonial e da biologia, precisou falhar para continuar existindo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. HARRIS, Sam. Livre-Arbítrio. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
  2. HOBBES, Thomas. Leviatã: Ou a matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo: Martin Claret, 2002.
  3. MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018. (Fundamentação utilizada para amparar a crítica sobre o uso do poder institucional e religioso na extinção de povos e controle de corpos nas Américas).

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